Caderno 2 – Chemical Brothers, o beat repaginado

Se hoje existem produtores de música eletrônica merecedores do único rótulo digno dos grandes – o de inclassificável – eles são Tom Rowlands e Ed Simons, duo britânico que forma o The Chemical Brothers. Com lançamento oficial de We Are the Night, para o dia 2 de julho, eles continuam firmes no posto de pioneiros; não só pelo que já produziram, mas pela incorporação dos mais variados estilos que a dance music, com público mais amplo e não tão exigente, alcançou desde a formação do dueto em 1993.

E não é fácil manter a originalidade. Da famosa cena dance de Manchester, que começou com a formação do New Order e na qual o Chemical Brothers se inspirou junto com a leva de outras bandas dos anos 80 – The Smiths, Jesus and the Mary Jain, Cabaret Voltaire e My Bloody Valentine – , gêneros clássicos como o house e o tecno se tornaram prefixos para a formação dos mais diversos estilos com as variantes: minimal tecno, electro-house, tech-house…

O que o dueto absorveu de tudo isso? Muito. O sexto álbum é a prova de que o Chemical Brothers mudou. Do big beat, ou chemical beats – já dá para perceber a importância de Rowlands e Simons na batida – sobrou pouco. O som que traz o 4×4 do house com hip-hop e funk, e influenciou Prodigy e Fatboy Slim, ficou nos anos 90, mas o beat e a diversidade de instrumentos e sintetizadores dão unidade ao We Are the Night, que continua sendo Chemical Brothers, na melhor tradução de ‘tudo pode fazer sentido na pista desde que esteja atrelado à batida’.

(RE)EVOLUÇÃO

We Are the Night é uma mistura de estilos. Mas a síntese do que há de novo está concentrada em uma faixa: Burst Generator. Batidas esparsas, sem exatamente o minimal tecno que chegou a ser um prelúdio da morte do hard. O aumento e diminuição de bpms, com aquelas famosas aceleradas que fazem a pista explodir, no entanto, trazem o clássico do Chemical Brothers, presentes em faixas essencialmente dançantes como Hey Boy Hey Girl.

Há duas faixas-ambiente curtas, Harpoons e No Path to Follow. Esta última abre o disco e curiosamente traz uma versão lenta dos primeiros segundos de Batlle Scars, que vem com um vocal inebriante de Willy Manson, americano com raízes no folk. A faixa começa com um electro e lá pelos 3 minutos, vira uma crescente, acompanhada de piano, com uma batida que evoca certa melancolia.

Os anos 80 são representados por A Modern Midnight Conversation, que também vem com batidinhas de electro, e soa como um aviso que a noite está para começar. A faixa homônima do álbum, We Are the Night, traz uma versão mais acelerada de The Physcodelic Reel, do Dig Your Own Hole, de 1997, álbum que fez o Chemical Brother estourar. O que permanece também, como faixa-conceito de outros discos do duo, são produções leves como The Pills Won’t Help You Know, que encerra o álbum como uma provocação pós-ecstasy.

PARCERIAS E NEW RAVE

O single Do It again, escolhido para divulgação, traz o vocal de Ali Love, músico Londrino que aposta em um eletrônico instrumentalizado. A faixa já tem clipe e vem com um apelo pop-house, mas sem a chatice de uma também pop One more Time, do Daft Punk. Aliás, os clipes do Chemical Brothers são épicos: são famosos o clipe de Elektrobank, que tem Sofia Coppola como estrela, e a parceria com Michel Gondry, em Star Guitar e Let forever Be.

Outra linha-mestra do duo são as parcerias, que, na música All Rights Reversed, traz Klaxons -, representante dessa leva de novas bandas batizada de new rave, e que mistura de tudo, inclusive rock e eletrônico. A presença da banda é marcante na faixa, que destoa do álbum, com a divertida The Salmon Dance, em parceria com o rapper Fatlip, com electro e influências de hip hop.

A capa de Surrender (1999), já trazia a estética de colagem presente em álbuns de new rave, como a compilação francesa Kitsuné Maison, que lançou bandas do gênero. Já o We Are the Night, apostou na psicodelia: com duas mãos e um olho em cada palma, fincados em uma terra íngreme e estrelas conectadas uma a outra, a capa do disco parece reproduzir efeito de um alucinógeno, no melhor deste álbum do Chemical Brothers, que, sem exceções, não tem faixa para pular.

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